O Naufrágio Que Ninguém Causou: Uma Lição de Sensemaking

Alisson Vale Por Alisson Vale
17 Mar 2026

No quinto episódio de O Reflexo, Edgard Lemos desce aos destroços do Audaz. O nome do navio é uma ironia amarga. Audácia era o que ele vendia como liderança, mas o que praticava era uma frágil tentativa de controle. Agora, o navio que um dia representou força e poder jaz no fundo do mar, silenciado.

Há uma história antiga, atribuída a Zhuangzi, que diz o seguinte:

Um homem atravessa o rio num pequeno barco. No meio da travessia, outro barco vem em sua direção e colide com o seu. O homem se enfurece. Grita. Xinga o piloto irresponsável. Mas quando olha para o outro barco, percebe que está vazio. A raiva desaparece instantaneamente.

O barco é o mesmo. A colisão é a mesma. O estrago é o mesmo. O problema nunca foi a colisão. Foi a história que criamos para nós mesmos sobre o que aconteceu.

A maioria de nós vive colidindo com barcos vazios, passando a vida inteira gritando com pilotos que não existem.

Culpamos o colega pelo projeto que falhou, o mercado pela estratégia que não funcionou, o algoritmo pela falta de alcance. Atribuímos intenção, negligência ou malícia a cada colisão que a vida nos impõe. Construímos um inimigo imaginário para que a nossa frustração tenha um alvo, um rosto.

O mundo se torna um adversário e ele é grande demais para ser vencido. Precisamos de outra abordagem.

Também acreditamos que, se pudéssemos controlar os outros barcos, navegaríamos em paz. Essa é a grande ilusão do controle. A premissa do Maquinista, que acredita que o mundo é um conjunto de trilhos e que seu trabalho é manter todos os trens na linha.

Mas a vida não é uma ferrovia. É um oceano. E, mais cedo ou mais tarde, o trilho acaba. A colisão é inevitável. E quando ela acontece, descobrimos que o barco que nos atingiu estava, desde o início, vazio. O inimigo que combatíamos era uma projeção. O piloto que xingávamos era um fantasma. A causa da nossa dor não estava fora, mas dentro da nossa própria narrativa.

Os estoicos tinham uma palavra para isso: adiaphora. As coisas indiferentes. Não boas, não más, apenas... coisas. Saúde, dinheiro, cargo, reconhecimento. Coisas que preferimos ter, claro. Mas que não são nós.

Edgard perdeu tudo o que compunha seu "eu" profissional. Seu nome foi apagado dos sistemas, seu cargo foi extinto, sua reputação, manchada. Ele não apenas perdeu o emprego; ele "devolveu" a persona. Como ensinava Epicteto, diante da perda, nunca diga "eu perdi". Diga "eu devolvi". O emprego, o cargo, a casa, o reconhecimento são coisas que a fortuna nos empresta. Mas elas não nos pertencem. Precisamos recebê-las sabendo que a devolução é certa.

Esvaziado de seus títulos e posses, diante dos ossos que restaram do seu naufrágio, o que resta a Edgard? Apenas o homem. O observador. Aquele que retorna ao fluxo da vida e ao processo de contínua transformação representado neste episódio pelo Ouroboros.

Mas o retorno ao fluxo exige algo que o corpo sabe e a mente resiste: um novo sentido.

Quando as coisas não dão certo, quando o mapa que usávamos se prova inútil para o território que estamos explorando, o que buscamos? O cientista organizacional Karl Weick diria que não buscamos informação. Buscamos sentido. Precisamos de uma nova história para entender o que aconteceu e quem somos agora. É o processo de sensemaking: a construção de uma narrativa coerente a partir do que existe hoje.

Dentro do Audaz, Edgard não encontra um manual de instruções ou um plano de recuperação. Ele encontra um diário. Um artefato de sentido. O diário é a ferramenta de sensemaking por excelência. É a curadoria da experiência, a transformação do caos da memória em uma jornada com início, meio e fim.

Ao ler o diário, Edgard percebe que o naufrágio não foi um acidente. Foi a consequência inevitável de uma falha interna, um ciclo de autoengano que vinha operando sob a superfície há anos. Ele finalmente entende: o barco que o atingiu estava vazio e ele não sabia que o piloto ausente era ele mesmo. Ele era o capitão que não estava no leme de sua própria vida, ocupado demais tentando controlar a posição de todos os outros navios no oceano.

É uma travessia do Fazer para o Ser. Uma renúncia ao papel de Maquinista, que precisa de trilhos, para abraçar a soberania do Navegador, que lê as ondas e ajusta as velas.

A soberania não está em desviar dos outros barcos. Está em esvaziar o seu.

A parábola de Zhuangzi não é um convite à passividade. É um mapa para a verdadeira soberania. Ela nos mostra que a liberdade não vem de um oceano sem colisões, mas da compreensão de que não há ninguém no outro barco. E, talvez mais importante, da coragem de olhar para o nosso próprio barco e perguntar: quem, de fato, está no leme?

O Episódio 5 de O Reflexo conta essa história. Ouça-o quando estiver pronto.

Sobre o autor

Alisson Vale

Alisson Vale

Ajuda líderes de software a desenvolverem uma compreensão profunda da complexidade em que atuam, traduzindo essa clareza em um repertório de ações práticas, que contribuem para o objetivo maior de construir uma carreira com mais significado e realizações.