O líder que morreu no horário previsto e ganhou a vida
A Série "O Reflexo" chega ao seu último episódio.
Edgard acreditava que os trilhos protegiam o trem. Até que o trem parou às 09h09. "O Reflexo" conta a jornada de um líder que precisou perder a identidade, o cargo e a vida que conhecia para encontrar o que sempre esteve ali. Esse é artigo de fechamento de uma série sobre o preço do controle e a conquista da paz.
Tudo começou com uma mala. Edgard Lemos a carregava pelo saguão do hotel como quem carrega uma extensão da própria identidade. Ela é prática, organizada, impecável. Contém tudo o que um profissional de elite precisa para transitar por salas de reuniões, conferências e apresentações de projetos grandiosos. A mala é leve o suficiente para embarcar em aviões, mas para Edgard pesa "uma vida inteira de escolhas ignoradas".
E tudo culminou em um diário. Um caderno de couro velho, com uma cobra gravada na capa. Ele não contém planos, cronogramas ou esquemas estratégicos. Contém perguntas. Perguntas que um velho pescador fez a si mesmo depois de perder tudo em um naufrágio e, no silêncio das águas, descobrir que a perda era o começo de outra coisa.
Entre a mala e o diário, sete episódios. Uma queda, um exílio, um retorno. A série "O Reflexo" acabou. Mas a pergunta que ela lança continua ecoando.
O Arquétipo do Maquinista e o Fosso de 20 Andares
Edgard não é apenas um personagem fictício. É um padrão, um arquétipo que vi se repetir ao longo de anos convivendo com líderes de tecnologia. Pessoas de quem se exige o impossível: comandar o que não se pode controlar. O risco começa quando se acredita na própria narrativa, na ficção de que se está no controle do resultado, do comportamento da equipe, da performance do novo produto. O mesmo profissional que assume estar no controle acaba confundindo competência com identidade e se perde, sem saber mais quem é sem o crachá.
Edgard é o Maquinista. Acredita que os trilhos protegem o trem, mas ignora que na verdade não está sob trilhos. Seu trem gira ao redor de um fosso, mas ele nunca olha para o fosso, prefere olhar para o dashboard, para os trilhos. Precisa estar sempre olhando para a frente. Para a próxima estação, para a próxima meta, o próximo projeto, o próximo desejo.
E, assim, a vida vai se construindo ao redor desse fosso, exatamente como naquele hotel onde toda a vida acontece na periferia, ao redor do átrio que fura o prédio do topo ao térreo, às margens do vazio escuro e sedutor.
A nossa volta inúmeras distrações criadas por líderes insanos nos mantêm ocupados demais para olharmos o fosso nos olhos: guerras, layoffs, ameaças de crises econômicas, disputas por poder ou o lançamento daquele novo produto premium que vai acalentar nossos desejos.
Nietzsche diria que não olhamos para o fosso vazio no centro das nossas vidas porque, se olharmos pra ele, ele olha de volta. Mas não olhar só piora o problema, porque "o fosso sorri enquanto vê Edgard se afastando". Para Nietzsche, olhar para o abismo causa vertigem (Abgrund), para Sartre, a náusea (La Nausée, de trop), para Camus, o choque do absurdo (L'Absurde, Le Divorce) e para Kierkegaard, a angústia (Angest).
Na história, o fosso representa a ausência de centro na vida moderna. A falta de sentido do Maquinista que não sabe que seu trem anda de forma circular, sem direção, levado por forças invisíveis de uma grande e vasta realidade que não está nem aí para seus anseios, cronogramas e dashboards.
O Reflexo e as Máscaras que Carregamos
Do outro lado do fosso está o Reflexo, a Persona Idealizada que na psicologia junguiana, é a versão de nós mesmos que fabricamos para ser aceita pelo mundo. A máscara que nunca treme, nunca duvida, nunca pede ajuda. Edgard a vê do outro lado do fosso: o homem de aparência idêntica a sua, mas sem hesitação. Sem a vulnerabilidade que ele considera fraqueza. Sem os laços humanos que ele trata como atrito.
O Reflexo o trai, o deixa pra trás segurando um bilhete estúpido e rouba seu táxi. A Persona nos trai porque ela não considera a totalidade do nosso Ser. Não liga para nós, só a interessa uma versão específica e irreal de nós. Para ela, temos traços com defeito, inúteis, que não servem. Mas estes fazem parte de nós mesmo assim e, como não têm pra onde ir, se refugiam na Sombra.
Edgard admira sua Persona. Sente fascínio por ela. Ela encarna quem gostaríamos de ser se pudéssemos extirpar de nós tudo o que consideramos imperfeito: o profissional impecável, que não hesita, não vacila, não erra, não sofre, não tem medo ou "frescuras". É a maquinaria moderna internalizada na psique humana.
O problema é que a Persona não é um centro. É uma referência externa, um centro falso e deslocado, que quando governa, passa a escolher quem fica, quem sai, o que pode ou o que não pode. Nesse jogo psicológico invisível, o nosso Eu verdadeiro é exilado. Nosso centro é esvaziado. E quando exilamos nosso centro, qualquer empurrãozinho nos joga dentro do fosso da existência vazia, onde só há caos e desorientação.
Cumpriu o Cronograma e Morreu no Horário Previsto
E o empurrão veio, pontualmente, às 09h09. "O tempo parou para aquele homem" que, encenando os próprios valores distorcidos, "cumpriu o cronograma e morreu no horário previsto", ou seja, atendeu cegamente aos desígnios do mundo externo que o comandava e, por isso, morreu por dentro.
"Basta um único dia... é o quão longe o mundo está de onde eu estou. Apenas um dia ruim." O Coringa
A queda de Edgard também durou um único dia. Mas não foi só um evento pontual, foi uma sequência de despedaçamentos.
Primeiro, o acidente. O relógio para. Chronos, o tempo do gerente de projeto, é destruído. Começa Kairós, o tempo da oportunidade, que não se mede em minutos, mas em escolhas. São nelas que descobriremos quem nos tornaremos. Edgard, o Batman e o Coringa perderam tudo em um único dia. Mas a série pergunta: "O que fica quando o controle se vai?", ou melhor, "Quem fica?".
Depois do acidente, a identidade digital de Edgard se dissolve. Os sistemas já não o reconhecem. Catracas, celulares, servidores, cartões de crédito e contas bancárias. Tudo aquilo que ele chamava de "eu" ou "meu" desaparece. Edgard descobre, de forma visceral, a diferença entre identidade extrínseca (o que nos dizem sobre o que somos) e identidade intrínseca (o que permanece quando todos se calam).
Então vem a tentação do Nada. No IML, ao ouvir que sua morte valeria mais do que sua vida, Edgard escolhe continuar morto. A má-fé existencial de Sartre: a recusa de reconhecer que existe escolha. "Não é por mim, não tenho alternativa", diz ele a si mesmo. Mas a alternativa sempre existiu. O que faltava era coragem para encará-la.
Nos três primeiros episódios, assistimos ao desmoronamento completo do Maquinista. Trilhos, identidade, propósito. Tudo vira escombro. Mas, como diz Epíteto, ninguém perde nada, apenas devolvemos o que nunca foi nosso. Fica então a pergunta que muitos têm receio de confrontar: se eu não sou aquilo que o mundo diz que eu sou, então quem sou eu?
A Saída é Restaurar o Sistema Legado
Edgard foi buscar a resposta para essa pergunta em Sepetiba, na casa do avô Sebastião, representante de uma sabedoria milenar que a vida moderna, e seu mito do progresso, esqueceram.
Edgard não queria "restaurar o sistema legado, voltar pro passado". Mas era exatamente isso que a vida pedia. Ver além do nevoeiro da vida moderna, ouvir as palavras de tradições filosóficas que nos deixaram um legado de sabedoria sobre a vida muito maior do que uma vida inteira dedicada apenas à entrega de projetos permite enxergar.
Como o mar, a realidade é grande demais para caber em nossos planos e expectativas. Em "O Reflexo", o mar é o símbolo da complexidade que permanece ubíqua e sempre presente ao nosso redor.
Diante do mar, Edgard tenta pilotar o barco como pilotava projetos: com força, com mapas e controle. O mar o derruba. Porque o mar não obedece a cronogramas. O mar exige respeito ao mistério, atenção ao entorno local e participação no poder transformativo das ondas.
É mudança imparável. Como no Ouroboros, a serpente que devora a própria cauda. O ciclo criativo que transforma o bom em ruim, e o ruim de volta em bom. E também o ciclo vicioso em que o ego se alimenta da própria destruição, confundindo movimento com progresso, controle com segurança, mapa com território.
Há séculos escolas filosóficas nos ensinam que diante de um mundo que não para, o que fica estável é o seu centro. É a quilha do barco que o impede de virar. E é o leme que dá direção. A série ensina que para voltar ao centro é preciso voltar-se para o passado e honrar a sabedoria conquistada em milênios de vida realmente examinada. Não é o cenário da peça que encenamos que importa. O Ouroboros gira e este muda a cada apresentação. O que importa são os atores e atrizes por trás dos personagens. São estes que ficam enquanto os espetáculos mudam.
O Retorno
Edgard percebe que sua queda não foi um acidente. Foi um chamado do seu Daimon, aquele que Sócrates dizia ser o guardião silencioso da alma que esperneia quando vivemos uma vida falsa; aquele que causa o acidente, que provoca a morte simbólica. Tudo era o grito de algo dentro dele que conhecia a verdade antes que ele pudesse admiti-la.
E ele finalmente entende que a transformação real não é aditiva. É subtrativa. Você não se torna algo novo. Você remove o que nunca foi seu. É só tirar o excesso. Não tem a ver com o que você faz, mas com quem você é. O Reflexo fala sobre como o que você faz é um reflexo de quem você é. "Primeiro é preciso ser, só depois vem todo o resto", diz o narrador.
Ao voltar para casa, ele já não é o Maquinista que calcularia o risco, buscaria a saída mais eficiente, deixaria cada um por si.
Volta marinheiro, lendo a onda e ajustando a vela. Já não está calculando ou estrategizando. Age a partir do seu centro. Faz a coisa certa. E, como diz ao advogado: "A coisa certa não precisa de motivo".
Mais Um Final Feliz
Todo final feliz é composto de três elementos: o bem vence o mal, a verdade é trazida à tona, e a justiça é feita. A Bondade, a Verdade e a Justiça são as grandes virtudes cardeais. O grande projeto de harmonização que nos foi atribuído quando pisamos nesse planeta.
Nos identificamos com finais felizes porque é por meio deles que nos lembramos o que estamos fazendo aqui, que reconhecemos o grande projeto que nos comprometemos, mas que insistimos em esquecer ao longo da vida. A humanidade caminha para uma inevitável harmonia, cabe a nós decidir se vamos jogar o jogo que viemos verdadeiramente jogar e, assim, encontrar a paz, ou resistir a ele, criar nossos próprios jogos egoístas, e encontrar os conflitos e o sofrimento ao longo do caminho.
No fim, a quietude. Não é tédio. É paz.
Ao criar harmonia, Edgard colocou a máquina moderna do sistema, do negócio, do processo, no seu melhor lugar: à serviço do que é real, do que é verdadeiramente humano. O propósito da máquina não está na sua função. Seu propósito é dar paz a quem a usa, eliminar atritos, gerar fluxo.
E, assim, ele passa pela catraca. A luz verde acende. "Saída Autorizada." Desta vez, a tecnologia, a vida moderna, não mais o domina, apenas o reconhece como o verdadeiro ser humano que é.
Sem dores, sem atritos, sem submissão. Edgard agora é verdadeiramente livre.
O Ciclo se Fecha
Ao lado de Mônica, o ciclo se fecha com uma "re-unificação", um "re-encontro", a "re-união" perdida com a Unidade.
A mesma sala de guerra agora é uma sala de restauração da paz, onde o processo de re-unificação acontece. A re-unificação da liderança com a sua equipe, do sistema com seus usuários, do projeto com o negócio, da empresa com seu cliente.
No trabalho, essa união é técnica, mas na vida ela é existencial. É quando o masculino se reunifica com o feminino (a atuação conjunta do casal), a sabedoria do passado se reunifica com a realidade contemporânea (a viagem final para Sepetiba), e a participação no presente vivo se reunifica com o futuro que precisa ser construído (o diário sendo passado para a frente).
O ciclo se fechou.
A vida recomeçou.
A Unidade se restabeleceu.
Se você chegou até aqui, sabe que aquele caderno de couro com a cobra na capa não ficou perdido. Ele está nas suas mãos agora. Que a vida lhe traga bons ventos na sua jornada.